A PRIMEIRA VARA DO LAGAR

O transporte da vara do lagar, a primeira, na década de 50 do século XX, foi uma autêntica aventura que mobilizou quase todos os homens da Lombada, durante um dia inteiro. Foi um “dia de favor” como então se dizia.

A vara, um til enorme, foi cortada nos Cântaros, atrás da nogueira grande e, por decisão do pai, veio com uma cabeça gigante porque foi cortada com parte significativa das raízes para aumentar o peso.

Deitado no chão, em cima da erva, o pau comprido, já descascado e aparelhado, parecia um monstro para espanto e comentário de muita gente. À sua volta, os homens pareciam formigas mas, com o auxílio do garrafão, diziam: “vai e vai mesmo!”.

O pai não parava de um lado para outro a “engenhar” o caminho pelo meio da Ribeira da Raiz até ao Poço do Vilão. Na frente do til foi cravado um ferro e amarrada uma corda comprida. A maioria dos homens começou a puxar e, com ajuda de paus redondos a fazer de alavancas, a vara começou a deslizar e foi aterrar com estrondo dentro da ribeira.

Foi a primeira de muitas festas regadas a suor e muito copo. Aos trambolhões e, depois de meio dia de trabalho, a vara saiu da Ribeira da Raiz mas não conseguia deslizar porque o caminho, ao lado da levada onde hoje está o Parque de Merendas, tinha uma parte de terra batida.

O problema resolveu-se calçando a vara com paus redondos e, aos puxões, o “monstro” chegou ao Lombo no meio de uma apupada monumental feita por grandes e, sobretudo, pelos muitos miúdos que por ali andavam a puxar a corda ou, simplesmente, a correr.

Daí até casa tudo foi mais fácil. O garrafão sempre a circular e o caminho empedrado ajudaram até mais do que o previsto. Antes de chegar a casa, já noitinha, no meio da algazarra, os homens largaram o til em direção ao terreno atrás do lagar. O pai, por pouco, não sofreu um acidente ao tentar guiá-lo para ficar já na direção certa.

Depois, bem!… Depois, foi a festa com toda a gente sentada em fila nas paredes de pedra do caminho em direção à nossa casa. O “dentinho”  reforçado, o copo, por vezes, já meio inclinado a passar de mão em mão, e o muito barulho tornaram aquele dia memorável e, mais tarde, recordado até com espanto.

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