A VISITA DO ESPÍRITO SANTO E O QUEIJINHO DA TIA MARIA

A visita do Espírito Santo à Lombada, num dos domingos depois da Páscoa, era o dia, por excelência, para todas as famílias abrirem as portas da sala, a dependência, tanto da nossa casa como das outras, onde durante o ano praticamente ninguém punha os pés.

A presença do senhor Padre, as duas meninas “saloias” de trajes vermelhos e vozes estridentes, os homens com as insígnias vermelhas e a bandeja de prata para recolher as ofertas obrigava, todos anos, a trabalhos de limpeza extra na nossa grande casa.

Para começar, a mobília da sala, muito antiga e toda trabalhada em vime, levava uma inspecção e um banho de óleo de máquina de costura para ficar a brilhar como nova.

As ervinhas do terreiro de pedrinha irregular e terra batida eram arrancadas uma a uma e o lixo varrido com vassoura de urze até os gravetos limparem tudo.

Depois da casa toda limpa, preparava-se, na sala, a mesa com as bebidas, vinho, licor e refrigerantes e o bolo preto para receber com pompa e circunstância todos os convidados.

Com o regresso da tia Maria, a lista dos petiscos, ditos maravalhos pelo pai, aumentou e diversificou-se de tal maneira que a sua fama obrigava todos os convidados, apesar de tanta prova e tanto bolo a ficar ali mais um bocadinho.

Entre outras novidades para aquela época, a tia introduziu uns bocadinhos de queijo espetados nos palitos que, pelo contraste do sabor salgado, num dia em que só se oferecia doces, provocava as delícias de todos e facilitava sempre mais um copinho, àquela hora já pequenino ou não muito direito para alguns.

O petisco com o queijo sabia tão bem que a tia vendo o stock a esgotar-se e depois de ter reparado na cor do inhame bem cozido e verificando a semelhança na cor e textura, resolveu misturá-lo em pedacinhos para reduzir os custos das suas inovações. Como ninguém deu pela manobra, a tia não ficou satisfeita e, toda orgulhosa, no final, resolveu interrogar um dos participantes e revelar o grande segredo do inesgotável petisco. Mas, depois de tanto copinho, só para provar, o queijinho ou inhame salgado era mesmo uma delícia.

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