A LENHA PARECIA SEMPRE VERDE

A lenha sempre foi um drama na nossa casa. O lume estava praticamente sempre aceso porque, além da nossa comida, tanto as galinhas como o porco, só consumiam “manjares” cozidos lentamente.

O pai providenciava a lenha com muita parcimónia, para evitar, creio eu, desperdícios prejudicais ao sabor e cheiro a esturro da comida, problema que detetava ainda antes de entrar na porta da cozinha.

Por vezes, a mãe resolvia o problema à sua maneira, dando cabo de uma estaca ou pontão de vinha, bem sequinhas e sempre à mão de apanhar numa emergência ou então dos louros da barraca onde se comia no Verão.

Uma ou duas vezes por ano, o fio da Passada descarregava, com lume a faiscar nos ganchos de arcos de pipa e galhos de louro nos paus, a lenha para uns meses.

Tudo chegava a casa verde e bem verdinho para durar mais tempo no canteiro. O pai gostava de ver em casa um monte de paus ali à espera de serem rachados e, de vez em quando, lá fazia a vontadinha à mãe, aprontando um corte de lenha para umas semanas.

A sorte diária da mãe eram os gravetos, as faias e os folhadeiros que vinham das Ladeiras, os restos dos pinheiros secos dos Lamaceiros ou troços de couve que ficavam a secar na terra.

O drama, o verdadeiro drama, era quando o tempo estava bom e nós, depois do almoço a saborear uma perguicinha, o pai dizia com voz clarinha: “Toca a andar. Vamos aos Lamaceiros buscar um molho de lenha”.

Em contrapartida, nada tinha mais encanto do que aquele calorzinho a sair da lareira nos dias frios. Havia sempre gente – por vezes até havia disputas pelo lugar – bem encostadinha à lareira; alguns ainda hoje não perderam esse hábito…

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2 respostas a A LENHA PARECIA SEMPRE VERDE

  1. celina diz:

    Sempre gostei de ser mulher; achava-me incapaz de executar tarefas que, na visão do PAI, eram bem demarcadas como sendo masculinas tais como esta: cortar lenha.
    Parece simples, mas olhem para o Pai que com um único movimento da podoa e muita concentração executava a tarefa na perfeição.
    Mas tudo mudou! Tive mesmo que praticar esta tarefa quando, no Natal 2010, fui à Fajã da Arruda cortar um ramo para a árvore de Natal na presença de Avelino sempre me observando e rindo de gozo: “- Nnnassim!”

  2. Marta diz:

    Manuel, tanta coisa que tu sabes … e quando estamos juntos não sai nada; só dás à pena – o que é bom, mas deixa um sabor a pouco . Neste momento já agendei várias perguntas para o próximo encontro sobre Avelino/avó que nunca tinha ouvido falar.

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