ESTRAGAR ENXADAS

Mais ou menos por esta altura do nosso ano agrícola, o pai reunia as enxadas, tirava-lhes os cabos e leva-as, todas amarradas num arame, para o ferreiro.

Havia dois nas redondezas, creio eu, mas as suas atividades eram misteriosas. Aquilo era lume, ferro a bater num casebre em que nem se podia entrar.

Pelos dramas lá de casa (as enxadas nunca mais vinham e as semilhas estavam a perder-se) tinham ambos os mesmos vícios: só trabalhavam quando faltava o combustível líquido.

As enxadas, de tanto bater na terra ficam pontiagudas e o pai queria os bicos cortados a direito para puxar bem a terra.

O ferreiro, nos intervalos dos dias na taberna, punha aquilo em brasa e acrescentava “meias solas” às pontas gastas com uma pancadaria infernal no ferro vermelho.

Quando as enxadas regressavam a casa com ar novinho, o pai espalhava-as no terreiro e, como a conta era sempre elevada, exclamava: “Tá aí para estragarem à vontade!…

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