RECORDAÇÕES

Em Santana, estivemos largos minutos a apreciar o belo presépio e as casas de Santana. Este ano, a novidade foi a transformação feita pela Câmara Municipal naquele espaço que, tradicionalmente, a família tem o hábito de visitar.

Numa delas, pensativa, a mãe sentou-se junto ao oratório do Menino Jesus. De que se estaria a recordar?

  • Talvez da sua casa da Lombada e do hercúleo trabalho de reconstrução? A areia e o areão vinham em ombros, pelas “varandas”, do “calhau” até à Lombada.
  • Da mobília antiga de verga que pertencia ao seu enxoval de casamento?
  • Do palheiro onde costurava até altas horas da noite à luz do candeeiro de petróleo e onde, por vezes, algumas filhas eram “apanhadas” para chulear as roupas e onde também os filhos se reuniam contando e ouvindo histórias até adormecerem ao som do “tracalhar” da máquina de costura?
  • Da voz terna da avó Teodora que, no silêncio, apoiava constantemente Avelino? Das suas idas matinais às Fontes, Ribeira ou Chamusca, apanhar erva para a vaca, sempre acompanhada por Avelino? Das suas sopas gostosas de feijão para alimentar a família?
  • Das primeiras “saídas” de Avelino à campa da avó?
  • Do forno antigo e da têmpera que aquecia a água para os banhos?
  • Do tio Tiago que, na companhia do pai, combinava os trabalhos e os negócios e, na maioria das vezes,  dormitava sentado na pedra que ainda está à espera de alguém que precise do seu aconchego para descansar?
  • Dos “maravalhos” e das pingas de jaqué que o pai, sempre disponível, “pagava” aos que por ali passavam vindos do trabalho das terras?
  • Dos bailinhos do “ti Bufa”?
  • Das idas até à Fajã da Areia acompanhando a Tia Maria até à camioneta que ali esperava as pessoas para iniciar a viagem até ao Funchal? Vinham da Lombada em carreiros de pé-posto, passando por estreitas e perigosas veredas, sobranceiras a insondáveis abismos. Em Fajã da Areia, perto do túnel, aí estava o sítio para “pegar” o transporte.

A mãe não se sentiu cansada. Ainda teve tempo de apreciar a “pia” que continha o trigo, o milho e a cevada.

Perante tal descoberta, o seu pensamento voou, mais uma vez, para as suas muitas recordações: a pia onde se malhava o trigo para o separar da palha, as arcas de madeira para o guardar, o moinho de água em Ponta Delgada, por cima do açougue, onde se fazia a farinha para as amassaduras das festas.

A nossa casa não é apenas um espaço físico: é aquele pedaço da memória que enche e dá sentido à vida das futuras gerações da família.

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2 respostas a RECORDAÇÕES

  1. Márcia Andreia diz:

    Olá! Estava a ver o seu blogue e apercebi-me de uma frase que nunca ninguém me tinha falado disso ” o moinho de água em Ponta Delgada, por cima do açougue, onde se fazia a farinha para as amassaduras das festas.” tens mais alguma informação sobre este moinho? Ficava próximo da fonte pública (nem sei se na altura já havia a fonte) no açouge? Onde ainda é visivel ver a levada (ve-se um arco). Os meus avós eram do Pico, meu avô tocava viola no espiríto santo da Ponda Delgada e era pisteleiro, será que a sua mãe conhecia…?

  2. fatima diz:

    Bela e bem retratada
    de olhar fixo na saudade
    num misto de serenidade e bravura
    Mãe e Avó te eternizaste

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