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O meu filho é arquitecto mas eu não percebo nada de arquitectura; talvez isso seja bom porque me dá liberdade para dar opiniões sobre arquitectura sem consciência de eventuais barbaridades que possa dizer… ou escrever. Por isso, aqui vai:
Os projectos, antes de serem formas concretas, são necessidades vivenciais. Por isso, as obras devem começar a ser construídas pelo seu verdadeiro interior.
O verdadeiro interior de uma casa é a família que a vai habitar: a sua história, o seu passado, os seus sonhos, os seus hábitos, ….
O verdadeiro interior de um equipamento urbano (por ex. um parque de merendas, um palheiro requalificado ou um monumento ao romeiro) é a comunidade onde se insere: a sua memória, a sua tradição, a sua cultura, as suas necessidades actuais e futuras, …
Mas um projecto não se esgota no seu interior: como afirma Le Corbusier «l’oeuvre n’est pas part seulement d’elle même; le dehors existe». O exterior (o ambiente natural, a paisagem,…) existe, condiciona e valoriza a obra.
Portanto, o espaço arquitectural, a própria arquitectura, resulta da conjugação do interior e do exterior, que, como afirma Oscar Niemeyer, são «duas coisas que nascem juntas e harmoniosamente se completam».
Eis porque perguntamos: «E agora, onde canta a água fresca?»
Mas… que percebo eu de arquitectura?
No Poço do Vilão já se podem observar sinais do novo parque de merendas. As pedrinhas dos pequenos palheiros já lhe dão um ar de graça.
Mas, quem ouviu o cantar da água entre as pedras da ribeira, andou entre as ervas sempre verdes, descansou debaixo das árvores frondosas não pode deixar de perguntar para que serviu tanto entulho dos túneis ali despejado.
Aquilo era um pequeno paraíso e agora parece um estranho mundo.
Havia uma nogueira, vimes na encosta e água sempre a correr entre as pedras. Depois veio a estrada, nova levada e os vimes desapareceram. Mas, mesmo assim, o pai ainda descobria umas pedrinhas debaixo das árvores frondosas para fazer uma espetada ou dormir uma soneca.
Agora, fruto da oferta que a família fez à Câmara Municipal de S. Vicente, vai nascer o Parque das Merendas para usufruto da população. O objectivo é o de criar uma zona social onde as pessoas poderão passar alguns tempos de lazer, fazer o seu churrasco, brincar com as suas crianças e desfrutar da imponente paisagem marcada pela natural laurissilva do Norte da Madeira e um espaço de atracção a visitantes com vista à dinamização a nossa terra.
O projecto é constituído por quatro volumes dispostos ao longo do Poço do Vilão, onde existem áreas de circulação e de estar para actividades de lazer. Os volumes distinguem-se entre si sendo um vocacionado para usos de churrascaria com linguagem arquitectónica que alude aos tradicionais palheiros agrícolas da Região. Há ainda outros volumes complementares, sendo que uns servem como abrigo e outros para a realização de piqueniques. Como articulação do conjunto optou-se pela colocação de pérgolas em madeira do tipo pinho nórdico.
O Parque terá uma placa para preservar a memória do pai que, na discrição, tanto trabalhou para a sua terra.
Mas… não seria possível conciliar toda esta modernidade com a beleza primitiva do local?
Juntar o útil (ter um sítio para despejar o entulho dos túneis) ao agradável (construção de um parque das merendas) nem sempre produz bom resultado arquitectónico.



![Sérgio Garcês Marques & Ana Lúcia da Cruz 01 – in[pack] architects](http://escolaprof.files.wordpress.com/2008/02/blog-logo-2.jpg?w=139&h=42)
