“Passamos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assim se chama,
Das que nós povoamos, a primeira,
Mais célebre por nome que por fama:
Mas nem por ser do mundo a derradeira
Se lhe aventajam quantas Vénus ama,
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

“Os Lusiadas”, Canto V - Estância 5
Luis de Camões

A Ilha da Madeira está para a nova realidade portuguesa (descobrimentos), como as ilhas gregas Cipro (Chipre), Gnido, Pafos e Citera, estavam para os poetas clássicos. É sintomática a instabilidade que se reflecte na poesia de Camões através da coexistência das referências geográficas que apontam para o passado, presente e futuro. O velho mundo sofre o influxo das mudanças operadas pelos descobrimentos tentando recuperar um passado mítico. O povo português olha para o presente e vê o futuro, mas temendo-o, volta-se para o passado a fim de melhor o compreender.
Os Lusiadas” é formalmente vinculado à tradição clássica (poema épico), reflecte o presente (a glória resultante dos descobrimentos) e aponta para o futuro (a superação das contradições da época).